‘Treinando caso ela diga não’: vídeos no TikTok simulam agressões a mulheres
Uma tendência que circula nas redes sociais, especialmente no TikTok, tem gerado forte repercussão e preocupação entre autoridades e especialistas. Conhecida pela frase “treinando caso ela diga não”, a trend mostra vídeos em que jovens encenam reações violentas após a simulação de uma rejeição em situações românticas, como pedidos de namoro ou casamento.
O formato dos vídeos costuma seguir um padrão: o criador começa a gravação simulando um gesto romântico, como se estivesse prestes a pedir alguém em namoro ou casamento. Em seguida, surge na tela a frase que indica o suposto “treinamento” caso a resposta seja negativa. Após isso, os autores passam a encenar reações agressivas, incluindo socos, movimentos de luta e até golpes simulados com facas.
A facilidade de reprodução do formato contribuiu para que a tendência se espalhasse rapidamente. Muitos vídeos utilizam exatamente a mesma frase ou pequenas variações, algo comum em trends replicáveis nas redes sociais. A maioria das publicações é feita por jovens ou adolescentes, o que ampliou ainda mais o alcance do conteúdo.
Investigação e remoção de conteúdos
A repercussão dos vídeos levou a Polícia Federal (PF) a abrir um inquérito para investigar o conteúdo que incentiva ou simula violência contra mulheres. A corporação também solicitou a remoção de perfis e publicações relacionadas à trend, além da preservação de dados das contas envolvidas para análise no curso das investigações.
Após a divulgação do caso, o TikTok informou que o conteúdo viola suas Diretrizes da Comunidade e afirmou que os vídeos foram removidos assim que identificados pela plataforma.
Mesmo assim, alguns registros ainda continuam circulando em diferentes perfis ou reaparecem com pequenas alterações na legenda ou na encenação.
Contexto de aumento da violência contra mulheres
A polêmica em torno da trend ocorre em um momento de alerta sobre a violência de gênero no Brasil. Dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública indicam que o país registrou 1.470 feminicídios em 2025, o maior número já contabilizado na série histórica.
O número supera os 1.464 casos registrados em 2024, que até então representavam o recorde. Na média, os dados apontam que quatro mulheres foram assassinadas por dia no país no último ano.
Casos recentes também reforçam a gravidade do cenário. No Rio de Janeiro, uma jovem de 20 anos foi esfaqueada mais de 15 vezes dentro de casa por um homem que insistia em manter um relacionamento com ela e não aceitou a rejeição. A vítima sobreviveu após quase um mês internada.
Em Pernambuco, uma jovem de 22 anos foi atacada por um ex-colega de trabalho após recusar um relacionamento. Segundo relatos da família, o agressor desferiu golpes de faca e depois ateou fogo na vítima utilizando solvente.
Outro caso foi registrado em Minas Gerais, onde uma mulher de 38 anos morreu após ser atacada com golpes de canivete por um homem que tentou forçar um beijo durante uma negociação de compra de celular. De acordo com a polícia, o agressor afirmou que “deu um branco” após a recusa da vítima.
Reações nas redes e debate sobre misoginia
A circulação da trend também provocou debates nas redes sociais. Muitos usuários criticaram o conteúdo, apontando que a violência contra mulheres não deve ser tratada como humor ou entretenimento.
Comentários em publicações classificaram a trend como “preocupante” e “sem graça”, além de alertarem para o risco de banalização da violência de gênero.
Por outro lado, alguns criadores de conteúdo responderam às críticas afirmando que os vídeos seriam apenas “memes” ou brincadeiras. Em alguns casos, autores reagiram com emojis de risada ou disseram que quem não gostasse do conteúdo poderia simplesmente ignorar a publicação.
Especialistas apontam que esse tipo de conteúdo pode reforçar comportamentos machistas. Segundo Luciano Ramos, diretor do Instituto Mapear, a popularização da trend está ligada a movimentos digitais que promovem discursos misóginos e reforçam estereótipos de masculinidade.
Para ele, jovens frequentemente buscam referências de comportamento em outros homens nas redes sociais, o que pode fortalecer padrões negativos de relacionamento.
“Os meninos são educados a partir da referência de homens adultos. É nesses modelos que eles buscam entender como devem se relacionar com as mulheres”, afirma.
Ramos também destaca que conteúdos violentos ou provocativos costumam receber maior engajamento nas plataformas, o que incentiva a reprodução do formato.
Pressão por investigação
A repercussão do caso também chegou ao campo político. A deputada federal Duda Salabert (PDT-MG) acionou o Ministério Público solicitando a investigação de perfis que divulgaram vídeos incentivando violência contra mulheres.
Segundo a parlamentar, esse tipo de conteúdo contribui para a naturalização da misoginia nas redes sociais.
Em documento enviado às autoridades, ela cita a propagação de uma tendência digital associada ao chamado “uppercut meme”, que utiliza humor para banalizar agressões contra mulheres.
O material encaminhado inclui uma lista de perfis e links de publicações feitas entre 2024 e 2025, além de um pedido para que as plataformas reforcem a moderação e o combate a conteúdos que incentivem violência de gênero.
Além disso, a Comissão de Segurança Pública da Câmara dos Deputados analisa um requerimento que pede à Procuradoria-Geral da República (PGR) a abertura de investigação sobre a disseminação da trend.
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