Red Pill: Entenda como comunidades online e vídeos virais promovem a violência contra a mulher nas redes sociais

Red Pill: Entenda como comunidades online e vídeos virais promovem a violência contra a mulher nas redes sociais

Apenas em janeiro de 2026, nos primeiros trinta e um dias do ano, o Brasil registrou 131 casos de feminicídio, de acordo com dados do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp). Crimes com alto grau de violência empenhada e o aumento no número de denúncias de agressão a mulheres não são, porém, fruto de uma mobilização completamente orgânica. A violência contra a mulher sempre esteve presente na sociedade brasileira. No entanto, os crimes produzidos na “realidade material” atualmente recebem influência direta de um discurso cada vez mais “viral” online: o red pill.

Nesta reportagem, o Bahia Notícias reflete sobre as origens conhecidas dessa “filosofia” e como ela se reflete em conteúdos virais nas redes sociais, incentivando a misoginia e fazendo apologias a violências físicas, psicológicas e patrimoniais contra mulheres.

O termo “red pill” é uma referência ao filme norte-americano The Matrix, das irmãs Wachowski, em que o protagonista Thomas Anderson é convidado a “despertar para a realidade” ao escolher entre as pílulas azul, que o manteria inerte em uma espécie de sonho, e a vermelha, que lhe concederia a consciência da realidade.

É com base em uma “revisão” da temática do filme ciberpunk distópico que algumas comunidades predominantemente masculinas dos anos 2000, hospedadas em plataformas online como Reddit, alegam promover um “despertar” de seus seguidores a questões relacionadas a gênero e masculinidade.

A “machosfera”

As pesquisadoras Ana Carolina Weselovski da Silva e Inês Hennigen, ambas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, detalham algumas características desse movimento no artigo “Misoginia Online: A Red Pill No Ambiente Virtual Brasileiro”, publicado em 2024 na revista Universidade Federal da Bahia.

“Analogamente, para esses masculinistas, acreditar que as mulheres foram/são subjugadas é uma ilusão criada para esconder o fato de que, na verdade, os homens são os explorados e oprimidos por um sistema ginocêntrico”, diz um trecho da pesquisa da dupla, com base em estudos de Van Valkenburgh.

Essas comunidades de homens que promovem uma “revisão” das relações históricas de gênero formam a chamada “manosfera” ou “machosfera”. Seriam ao menos quatro grupos de homens masculinistas nessa bolha:

  • MRAs (Men’s Rights Activists) – ativistas pelos direitos dos homens
  • PUAs (Pick-Up Artists) – artistas da sedução
  • Incels (Involuntary Celibates) – celibatários involuntários
  • MGTOWs (Men Going Their Own Way) – homens seguindo seu próprio caminho

O primeiro grupo, dos Ativistas Pelo Direito dos Homens, é definido como um dos mais antigos. Neste caso, os adeptos se baseiam nas ideias do livro The Myth of Male Power, do autor Warren Farrell, publicado em 1996. Na obra, o autor nega a existência da dominação masculina e defende que os homens seriam o “sexo descartável” na sociedade por assumirem tarefas arriscadas, enquanto as mulheres estariam numa posição mais protegida e privilegiada.

A seguir, os Artistas da Sedução, que “propõem ensinar os homens a como seduzir e se relacionar com as mulheres”, segundo a definição das autoras Ana e Inês. Elas explicam que o grupo também tem bases no final dos anos 90 e início dos anos 2000, sob influência do estadunidense Daryush Valizadeh, conhecido como Roosh V. O autor defende a ideia de “neomasculinidade”, criada por ele, como forma de ensinar homens a reagir em um mundo que, segundo ele, desprezaria características “tradicionais masculinas”.

Já os Incels, ou celibatários involuntários, seriam um grupo formado majoritariamente por jovens que não conseguem manter relacionamentos sexuais e amorosos da forma como gostariam, tornando-se celibatários involuntários. Dessa forma, o grupo se aproxima de discursos vinculados à misoginia e, não raro, culpa as mulheres pelos problemas enfrentados pelos homens.

Por fim, os MGTOW (Men Going Their Own Way) são homens que optam por não se relacionar com mulheres, seguindo a premissa de rejeição ao casamento, ao amor romântico e ao cavalheirismo, considerados por eles como “costumes ginocêntricos” que levariam à servidão masculina.

Todos esses grupos, antes limitados a pequenas comunidades online, têm se tornado cada vez mais presentes nas redes sociais e alcançado novos públicos por meio da impulsão dos algoritmos das plataformas digitais. Os conteúdos produzidos por eles são divulgados em diversos formatos, frequentemente apresentados como “conselhos amorosos”, “guias para o sucesso” ou conteúdos de autoajuda, mas que reforçam papéis rígidos de gênero, a submissão feminina e, em alguns casos, até a violência física ou psicológica contra mulheres.

Repercussões virais

Com o alcance das redes sociais, parte desses conteúdos divulgados por grupos masculinistas passou a atingir audiências cada vez maiores. Em muitos casos, os influenciadores utilizam vídeos curtos e discursos motivacionais para reforçar ideias sobre o “lugar do homem” e o “lugar da mulher” na sociedade.

Um exemplo é o vídeo de um influenciador que afirma que “toda mulher deveria ter um trabalho pela internet”, não por autonomia ou qualidade de vida, mas para que possa dedicar mais tempo às tarefas domésticas e à manutenção do lar.

Outro criador de conteúdo conhecido nas redes sociais, com mais de um milhão de seguidores, publica vídeos ensinando mulheres a se comportar dentro de relacionamentos segundo uma visão tradicionalista. Há também influenciadores que defendem que mulheres seriam historicamente privilegiadas em comparação aos homens.

Um deles cita o naufrágio do RMS Titanic sinking como exemplo de privilégio feminino, argumentando que mulheres foram socorridas primeiro durante a tragédia.

Em outros conteúdos, influenciadores fazem comparações entre mulheres que mantêm relações sexuais fora de relacionamentos e prostitutas, além de sugerirem que leis de proteção à mulher seriam responsáveis por “desestimular” a iniciativa masculina em interações sociais.

Esses são apenas alguns exemplos de conteúdos que circulam diariamente nas redes sociais e que, segundo especialistas, ajudam a normalizar discursos de ódio e misoginia.

Na última semana, um dos jovens acusados de participar de um estupro coletivo contra uma adolescente de 17 anos no Rio de Janeiro apareceu usando uma camiseta com a frase “regret nothing” (“não se arrependa de nada”), expressão associada ao influenciador Andrew Tate, conhecido por declarações misóginas e atualmente réu em processos por estupro, tráfico humano e exploração sexual.

No artigo “Misoginia Online: A Red Pill No Ambiente Virtual Brasileiro”, as pesquisadoras destacam que, embora muitos desses grupos afirmem discutir apenas problemas enfrentados por homens na sociedade contemporânea, o discurso frequentemente acaba direcionado ao ódio contra mulheres.

“As declarações proferidas por esses grupos acabam criando um ambiente confortável para dar vazão à misoginia que ainda precisa ser superada em nossa sociedade”, apontam as autoras.

Diante desse cenário, ativistas sociais defendem a criação de mecanismos para regular a circulação de conteúdos de ódio nas plataformas digitais. Um exemplo é o projeto apresentado pelo senador Randolfe Rodrigues, que propõe a criação da Política Nacional de Combate ao Discurso de Ódio contra a Mulher na Internet.

A proposta prevê que plataformas digitais sejam obrigadas a retirar conteúdos que incentivem a violência de gênero ou disseminem discurso de ódio contra mulheres, como forma de ampliar a proteção no ambiente virtual.

Por Alana Dias / Eduarda Pinto — Bahia Notícias

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