Bolsa brasileira perde R$ 873 bilhões e ações despencam após reeleição de Lula

Bolsa brasileira perde R$ 873 bilhões e ações despencam após reeleição de Lula

Ibovespa acumula recuo de 16,6% em três pregões, enquanto papéis de empresas como Magazine Luiza, Cosan e Vamos registram desvalorizações superiores a 50%.

O mercado financeiro brasileiro enfrenta uma forte onda de desvalorização após o resultado das eleições presidenciais. Em apenas três pregões, até quarta-feira (28), o Ibovespa acumulou queda de 16,6%. No mesmo período, as empresas listadas na Bolsa perderam R$ 873 bilhões em valor de mercado.

O movimento reflete a revisão das expectativas dos investidores em relação à economia brasileira, especialmente diante das incertezas sobre as contas públicas, a inflação e os próximos passos da política monetária.

Na sessão de quarta-feira, o principal índice da Bolsa recuou 2,68%. Algumas empresas, porém, tiveram perdas ainda mais expressivas: Casas Bahia caiu 20%, Cosan recuou 12%, Cyrela perdeu 11% e Cogna registrou baixa de 10%.

A pressão também atingiu setores considerados mais defensivos. O índice financeiro IFNC caiu 4,76%, enquanto o indicador de energia elétrica recuou 3%. Entre as empresas do segmento, a AXIA Energia teve desvalorização de 5,2% no pregão.

Algumas empresas já perderam mais da metade do valor

O impacto da turbulência fica ainda mais evidente quando são observadas as perdas individuais das companhias. Desde o período eleitoral, a Vamos acumula desvalorização de 60% em valor de mercado. Magazine Luiza perdeu 59%, Cosan recuou 55% e Hapvida caiu 52%.

Também aparecem entre as maiores quedas C&A e Cyrela, ambas com recuo de 50%, além da MRV&Co, que perdeu 48%. Localiza e Assaí acumulam desvalorizações de 43%.

Entre os setores, o índice imobiliário IMOB lidera as perdas, com queda de 33,6%. O indicador de empresas de menor capitalização, conhecido como small caps, recuou 30%. Já os índices de consumo e financeiro registraram baixas de 28,5% e 26,3%, respectivamente. O setor de energia elétrica caiu 19%.

Inflação e juros preocupam investidores

Além da reação ao resultado eleitoral, as perspectivas para a inflação e a taxa básica de juros aumentaram a cautela no mercado.

O BTG Pactual elevou suas projeções para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). A estimativa para 2027 passou de 4,8% para 5,9%, enquanto a previsão para 2026 subiu de 5,3% para 5,4%.

A revisão alimenta preocupações sobre a possibilidade de o Banco Central interromper o ciclo de redução da taxa Selic já na próxima reunião. Juros elevados por mais tempo podem dificultar o financiamento das empresas, especialmente daquelas com alto nível de endividamento, além de pressionar seus resultados.

Outro fator de atenção é a política fiscal. A falta de sinais considerados claros sobre o controle das contas públicas e as medidas econômicas esperadas para os próximos anos também influencia a percepção de risco dos investidores.

Incerteza política pode ampliar a pressão

O cenário político também aparece entre os fatores que contribuem para a instabilidade. A movimentação de Flávio Bolsonaro em direção aos Estados Unidos e suas manifestações sobre o resultado eleitoral foram apontadas por um gestor como possíveis elementos adicionais de preocupação.

Na avaliação desse profissional, eventuais medidas de pressão do governo norte-americano contra o Brasil, incluindo sanções, poderiam atingir especialmente o setor bancário. A possibilidade, no entanto, é tratada como um cenário hipotético, e não como uma medida já anunciada.

A estratégia adotada por fundos de investimento também pode ter contribuído para a intensidade das perdas. Parte dos gestores havia montado posições apostando em uma vitória de Flávio Bolsonaro. Com um resultado diferente do esperado, esses investimentos precisaram ser revistos.

Além disso, fundos pressionados por pedidos de resgate podem ser obrigados a vender ativos para levantar recursos, aumentando a pressão sobre as cotações. Esse risco não significa que uma nova onda de vendas já esteja em andamento, mas pode ampliar a volatilidade caso se concretize.

Investidores revisam apostas após resultado das urnas

O ex-analista do UBS-BB Giuliano Ajeje avaliou, em publicação no LinkedIn, que a intensidade da reação da Bolsa indica que muitos investidores estavam pouco protegidos contra um resultado eleitoral diferente daquele que esperavam.

A análise aponta que parte do mercado concentrou suas apostas em uma vitória de Flávio Bolsonaro. Com a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva, posições construídas com base nessa expectativa precisaram ser ajustadas, contribuindo para a queda dos ativos.

O episódio evidencia como a concentração de investimentos em torno de um único cenário eleitoral pode ampliar os impactos de uma mudança nas expectativas.

A continuidade da desvalorização dependerá de fatores como os próximos sinais da política econômica, a trajetória da inflação, as decisões do Banco Central e a reação dos investidores às perdas acumuladas.

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