Tupinambá de Olivença realiza 26ª caminhada em memória dos mártires do Cururupe

Tupinambá de Olivença realiza 26ª caminhada em memória dos mártires do Cururupe

O povo Tupinambá de Olivença realiza neste domingo (27) a 26ª Caminhada em Memória dos Mártires do Rio Cururupe e do Caboclo Marcelino. A concentração e saída acontecem na Praça da Aldeia Mãe, em Olivença, distrito de Ilhéus.

Esta será a primeira edição realizada após o governo federal declarar, em novembro de 2025, a posse permanente da Terra Indígena Tupinambá de Olivença. A área reconhecida possui cerca de 47,3 mil hectares e abrange territórios de Ilhéus, Buerarema e Una.

Tradicionalmente realizada no último domingo de setembro, a caminhada percorre aproximadamente sete quilômetros entre Olivença e o Cururupe. Durante o trajeto, os participantes utilizam cantos, maracás, pinturas e outros elementos culturais em uma homenagem aos antepassados.

Memória e resistência

O percurso remete a episódios de violência registrados na história do povo Tupinambá. Um deles ocorreu em 1559, durante uma ofensiva comandada pelo então governador-geral Mem de Sá, que resultou na morte de indígenas na região do Cururupe.

O episódio ficou conhecido em alguns relatos como Batalha dos Nadadores, em referência aos indígenas que entraram no mar durante a perseguição. O professor indígena Casé Angatu questiona essa denominação e afirma que não se tratou de uma batalha, destacando a desigualdade entre os grupos envolvidos.

A caminhada também homenageia Caboclo Marcelino José Alves, liderança que, no final da década de 1920, resistiu à perda de terras indígenas e à construção da ponte sobre o Rio Cururupe. Segundo registros reunidos pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi), uma repressão ocorrida às margens do rio em 26 de setembro de 1937 ficou conhecida como a Última Revolta do Caboclo Marcelino.

Tradição começou em 2000

A caminhada teve início em 2000, a partir de uma proposta da Diocese de Ilhéus durante a Campanha da Fraternidade daquele ano. Desde então, o povo Tupinambá transformou a peregrinação em uma manifestação anual de memória, identidade cultural e reivindicação de direitos.

Um convite assinado pela cacica Maria Valdelice Amaral de Jesus para a sexta edição, em 2006, já relacionava a homenagem aos mortos à luta pela demarcação do território.

Outro símbolo da trajetória é o Manto Tupinambá. A peça sagrada foi localizada em 2000 pela liderança Nivalda Amotara durante uma exposição em São Paulo. O manto retornou ao Brasil em 2024, vindo da Dinamarca, após mais de três séculos no exterior.

Nova etapa após declaração da terra

A portaria publicada em novembro de 2025 declarou como de posse permanente dos Tupinambá uma área de aproximadamente 47.376 hectares entre Ilhéus, Buerarema e Una. O documento prevê que a Funai realize a demarcação administrativa antes da homologação pela Presidência da República.

Lideranças indígenas têm cobrado a conclusão das etapas restantes e medidas que garantam a posse efetiva do território. Para Nádia Akawã Tupinambá, da Aldeia Tukum, a caminhada deste ano terá um significado especial por ocorrer pela primeira vez após a declaração oficial da terra.

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