Bolsonaro pode ser preso por dar uma entrevista. Amanhã, pode ser qualquer cidadão

Bolsonaro pode ser preso por dar uma entrevista. Amanhã, pode ser qualquer cidadão

Na segunda-feira, o ex-presidente Jair Bolsonaro concedeu uma rápida entrevista à imprensa na Câmara dos Deputados, após reunião do Partido Liberal. Não havia coletiva oficial, tampouco postagem pessoal em redes sociais. Mesmo assim, o conteúdo foi compartilhado online — e isso, segundo o ministro Alexandre de Moraes, pode ser motivo para prisão imediata.

A decisão abre um precedente assustador: uma entrevista concedida a jornalistas pode ser enquadrada como descumprimento de medida cautelar, caso o conteúdo venha a circular em redes sociais — mesmo que a publicação não tenha sido feita pelo próprio Bolsonaro. O que se vê é o aprofundamento de uma lógica repressiva que não se sustenta em nenhuma base democrática minimamente honesta.

A censura prévia é vedada pela Constituição. O impedimento de dar entrevistas, a criminalização de declarações e o controle total da narrativa oficial são marcas de regimes autoritários, e não de democracias.

O mais grave é que essa perseguição judicial parece ter evoluído para um segundo estágio de repressão. Agora, não basta censurar: quem denuncia a censura, inclusive em instâncias internacionais, passa a ser tratado como traidor da pátria — em uma espiral perigosamente semelhante ao que se observa em regimes como o da Venezuela, onde uma nova lei prevê 25 anos de prisão para quem criticar o país no exterior.

A pergunta que fica é: até onde mais isso vai? O Supremo não é apenas a última instância judicial — ele se tornou o centro de decisões políticas, sem freios nem contrapesos. Quando o próprio Judiciário passa a legislar, executar e punir, o Estado de Direito entra em colapso.

Hoje, é Bolsonaro quem pode ser preso por dar uma entrevista. Amanhã, pode ser qualquer cidadão. O Brasil caminha para uma zona cinzenta, onde os limites entre justiça e autoritarismo se tornam indistinguíveis — e isso exige reflexão urgente de toda a sociedade.

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