A indecência da mídia sensacionalista que engaja com mortes e tragédias
Um episódio recente envolvendo um jornalista da televisão brasileira reacendeu um debate antigo — e cada vez mais necessário — sobre os limites éticos do jornalismo na busca por audiência.
Um áudio vazado, atribuído ao apresentador Guilherme Rivaroli, âncora do Balanço Geral Curitiba, da Record TV, causou forte repercussão nas redes sociais. Fora do ar, durante o intervalo do programa, o jornalista comemorou índices de audiência obtidos com a cobertura do desaparecimento de um jovem de 19 anos na região de Curitiba, chegando a afirmar que “podia ter um desaparecido por dia”, em referência direta ao engajamento gerado pelo caso.
O comentário veio após uma cobertura extensa do desaparecimento, que ocupou cerca de 70 minutos ininterruptos da programação. No áudio, o apresentador compara os números de audiência com emissoras concorrentes e associa diretamente a tragédia humana ao desempenho do programa.
A fala gerou indignação imediata entre internautas, profissionais da comunicação e parte do público, que passaram a questionar até que ponto a tragédia alheia pode — ou deve — ser explorada como estratégia de engajamento. Até o momento, nem o jornalista nem a emissora se manifestaram oficialmente sobre o ocorrido.
O caso expõe uma discussão que vai além de um episódio isolado. Notícias sobre desaparecimentos, crimes e acidentes são, sim, fatos jornalísticos e devem ser noticiados. O problema surge quando a dor, o medo e o sofrimento passam a ser tratados como métricas de performance, curtidas, pontos no ibope ou ferramentas deliberadas de crescimento.
A fronteira entre informar e explorar é tênue — e, quando ultrapassada, transforma o jornalismo em espetáculo, a tragédia em produto e a audiência em fim absoluto. Em tempos de redes sociais, algoritmos e disputa feroz por atenção, cresce a responsabilidade dos veículos em escolher como e por que noticiar.
O jornalismo que se sustenta apenas no choque, na tragédia contínua e na desgraça cotidiana pode até gerar números momentâneos, mas cobra um preço alto: o da credibilidade, da humanidade e do compromisso com a sociedade.
Informar é necessário. Explorar, não.

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