Bolsa cai mais de 2% e dólar dispara em meio a incertezas econômicas e políticas

Bolsa cai mais de 2% e dólar dispara em meio a incertezas econômicas e políticas

O mercado financeiro brasileiro voltou a registrar perdas nesta terça-feira (3), com o Ibovespa chegando a recuar mais de 2% durante o pregão. O movimento foi acompanhado pela valorização do dólar e pela alta dos juros futuros, em meio à preocupação de investidores com os rumos da política econômica do governo Lula e às incertezas envolvendo as eleições de meio de mandato nos Estados Unidos.

Por volta das 12h50, o principal índice da Bolsa brasileira caía 1,48%, aos 165.427 pontos. Na mínima do dia, chegou a perder 2,07%, atingindo 164.446 pontos. No mesmo horário, o dólar avançava 0,91%, cotado a R$ 5,50.

A pressão também apareceu no mercado de juros. Os contratos futuros com vencimento em janeiro de 2031 e janeiro de 2035 registravam altas superiores a 30 pontos-base, refletindo a maior remuneração exigida pelos investidores para assumir riscos relacionados à economia brasileira.

Proposta para reduzir a Selic gera reação no mercado

Um dos fatores que influenciaram o pregão foi a repercussão de uma proposta atribuída ao economista André Lara Resende, um dos formuladores do Plano Real. Ele defende uma mudança na coordenação das políticas fiscal e monetária, com o objetivo de reduzir os juros e alterar a dinâmica da dívida pública.

A ideia prevê a criação de um Conselho Fiscal e Monetário Nacional, responsável por estabelecer metas conjuntas para um período de quatro a cinco anos. Entre as propostas está a redução gradual da taxa Selic, atualmente em 13,75% ao ano, até chegar a 7,5% em um prazo de 12 meses, com uma margem de segurança.

A possibilidade provocou desconforto entre participantes do mercado financeiro. Analistas avaliam que uma redução acelerada dos juros, sem mudanças correspondentes na percepção de risco fiscal e institucional, poderia estimular a saída de capital estrangeiro, pressionar o dólar e elevar as expectativas de inflação.

O governo, por sua vez, negou que exista uma reunião privada já agendada entre Lula e Lara Resende. Integrantes da equipe econômica afirmaram que há uma tentativa de organizar um encontro do presidente com economistas de diferentes correntes para discutir alternativas ao cenário fiscal.

Dívida pública e juros ampliam preocupação

A discussão ocorre em um momento de pressão sobre as contas públicas. A dívida bruta do governo chegou a 82,9% do PIB, o maior nível desde 2021. Economistas apontam que seria necessário um ajuste fiscal de pelo menos R$ 250 bilhões ao longo dos próximos quatro anos para estabilizar a trajetória do indicador.

Para investidores, a perspectiva de manutenção de despesas elevadas sem medidas suficientes de compensação pode aumentar o risco associado aos títulos brasileiros. Com isso, o mercado passa a exigir juros maiores para financiar o governo.

Na terça-feira, títulos públicos também registraram taxas elevadas. O Tesouro IPCA+ com vencimento em 2032 oferecia rendimento de 8,12% ao ano acima da inflação, enquanto o prefixado com vencimento em 2028 pagava 14,69% ao ano.

Eleições nos Estados Unidos entram no radar

No cenário internacional, as eleições de meio de mandato nos Estados Unidos também influenciavam o comportamento dos investidores. A votação define as 435 cadeiras da Câmara dos Representantes e 35 das 100 vagas do Senado.

A expectativa de avanço dos democratas, que fazem oposição ao presidente Donald Trump, aumentava a atenção sobre possíveis mudanças no equilíbrio político de Washington e seus efeitos sobre decisões econômicas e comerciais.

Analistas destacam que uma eventual divisão de poder entre os partidos pode ampliar a incerteza política, mas também limitar a capacidade de aprovação de medidas mais ambiciosas pelo governo americano.

Mercado ainda repercute perdas recentes

A instabilidade desta terça-feira ocorre após uma sequência de fortes oscilações nos ativos brasileiros. Na semana anterior, o Ibovespa acumulou queda de 17,5%, enquanto o dólar avançou 9,18%, segundo os números apresentados no levantamento.

A desvalorização da Bolsa chegou a provocar a interrupção temporária das negociações pelo mecanismo de circuit breaker, acionado quando as perdas atingem determinados limites. O movimento refletiu a mudança nas expectativas dos investidores sobre a política fiscal e o cenário econômico após o resultado eleitoral.

A combinação de incertezas internas, juros elevados e movimentações no cenário internacional mantém os mercados atentos aos próximos sinais do governo brasileiro e às decisões políticas nos Estados Unidos.

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