O reino do arauto das tragédias

O reino do arauto das tragédias

Dizem que, em um certo reino, havia um arauto muito curioso.

Enquanto outros anunciavam festas, conquistas e boas notícias, ele descobriu um atalho para a fama: incêndios, desastres, confusões e toda sorte de desgraça. Quanto pior a notícia, maior a plateia. Quanto maior a tragédia, mais gente corria para ouvi-lo. E assim o arauto prosperou.

Com o tempo, passou a acreditar que era indispensável ao reino. Não apenas anunciava os acontecimentos. Na sua cabeça, era responsável por eles.

Quando um buraco era tapado, sentia-se ministro das estradas. Quando uma lâmpada era trocada, sentia-se senhor da iluminação. Quando uma obra terminava, sentia-se mestre das construções. O reino inteiro trabalhava, mas o arauto tinha certeza de que tudo acontecia graças aos seus anúncios.

Havia, porém, uma estranha coincidência.

O arauto parecia florescer nos dias mais sombrios. Quando o reino vivia tempos tranquilos, as pessoas mal percebiam sua presença. Mas bastava uma enchente, uma briga na praça, um acidente na estrada ou qualquer nova tragédia para que ele surgisse imediatamente, tomado por uma energia quase renovada.

Enquanto alguns celebravam as boas notícias, o arauto parecia encontrar seu combustível justamente nas más. Não demorou para que muitos começassem a notar que ele corria mais rápido em direção ao incêndio do que à reconstrução da casa.

E, aos poucos, passou a existir uma dúvida silenciosa entre os moradores do reino:

o arauto realmente desejava o fim dos problemas ou apenas precisava deles para continuar sendo ouvido?

A fama subiu-lhe à cabeça.

Passou a caminhar como se fosse o dono da praça, o guardião da verdade e o único intérprete legítimo das dores do povo.

Havia ainda outro detalhe curioso.

No começo, o arauto parecia interessado apenas em relatar os acontecimentos do reino. Mas, com o passar dos anos, algo mudou.

Já não bastava estar na praça. Era preciso estar no centro dela.

Já não bastava narrar os acontecimentos. Era preciso participar deles.

E já não bastava que as pessoas olhassem para os problemas do reino. Era preciso que olhassem para ele.

Foi quando o personagem começou a confundir notoriedade com importância.

Aplausos com confiança.

E presença com liderança.

Pouco a pouco, deixou de enxergar a praça como um lugar para observar e passou a enxergá-la como um palco.

E todo palco tem uma característica perigosa:

quanto mais tempo alguém permanece sob os refletores, mais difícil se torna lembrar por que subiu ali em primeiro lugar.

E havia mais.

Toda vez que alguém discordava dele, não era crítica.

Era perseguição.

Toda vez que alguém apontava um erro, não era correção.

Era inveja.

Toda vez que alguém fazia algo parecido, não era concorrência.

Era conspiração.

O arauto vivia cercado por inimigos imaginários e admiradores imaginados.

Até que um dia surgiu outro pregador na praça.

Mais barulhento.

Mais exagerado.

Mais disposto a transformar qualquer acontecimento em espetáculo.

E foi então que o velho arauto descobriu uma verdade desconfortável:

quem vive da atenção dos outros passa a vida inteira com medo de perdê-la.

No fim, o reino continuou existindo. Os buracos continuaram sendo tapados. As obras continuaram acontecendo. As pessoas continuaram vivendo suas vidas.

E os arautos seguiram disputando quem gritava mais alto.

Porque alguns homens querem resolver problemas.

Outros apenas precisam que eles continuem existindo.

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